A inadimplência B2B em materiais de construção precisa ser analisada com mais cuidado em 2026. Os indicadores não apontam para uma crise uniforme da cadeia. No entanto, mostram um ambiente no qual crédito caro, vendas irregulares e diferenças relevantes entre empresas de maior e menor porte aumentam a importância de olhar além das médias setoriais.
Para CFOs, lideranças financeiras, comerciais e de crédito e cobrança, portanto, a pergunta mais útil não é simplesmente se a inadimplência está aumentando. É onde a capacidade de pagamento pode estar se deteriorando primeiro dentro da carteira.
Inadimplência empresarial recorde amplia o contexto de risco
Em agosto de 2026, o Brasil atingiu um novo recorde de inadimplência empresarial: 9,3 milhões de CNPJs negativados, acumulando R$ 244,4 bilhões em dívidas, segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian, divulgado em outubro. O número representa um crescimento de 14,3% em relação a agosto de 2025.
Ao todo, foram registradas 68,2 milhões de dívidas, com média de 7,4 contas negativadas por empresa. As micro e pequenas empresas concentraram 8,8 milhões de CNPJs inadimplentes, somando R$ 211 bilhões em pendências.
O levantamento reforça que, mesmo com a redução da taxa básica de juros, o crédito continua caro e a pressão sobre o caixa empresarial permanece elevada. Para empresas de menor porte, a necessidade de administrar simultaneamente despesas operacionais, capital de giro e obrigações financeiras amplia os desafios de liquidez.
O ambiente de crédito também exige atenção. Segundo o Banco Central, a inadimplência das operações de crédito para pessoas jurídicas atingiu 3,3% em setembro de 2026. Nas operações de crédito livre para empresas, chegou a 4,2%, enquanto a taxa média de juros dessas operações ficou em 24,4% ao ano.
Embora os indicadores tenham apresentado algum alívio na comparação mensal, as condições de financiamento ainda representam um desafio para empresas que dependem de capital de giro e precisam administrar diferentes compromissos financeiros.
Consequentemente, empresas com menor geração de caixa passam a administrar diferentes obrigações ao mesmo tempo. Isso pode alterar prioridades de pagamento e aumentar a disputa pelos recursos disponíveis.
Ainda assim, há uma distinção importante: esses números não demonstram, sozinhos, que a inadimplência entre fornecedores e compradores de materiais de construção aumentou na mesma proporção. Eles definem o ambiente de risco no qual essa cadeia está operando.
Indústria de materiais perdeu faturamento real no primeiro semestre
A pressão aparece também nos indicadores específicos do setor. Segundo o Índice ABRAMAT, o faturamento deflacionado da indústria de materiais de construção recuou 3,4% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025. Por isso, a entidade reduziu sua projeção anual de crescimento de 1,9% para 0,5%.
Junho trouxe um contraponto positivo: houve avanço dessazonalizado de 1,9% sobre maio. Porém, a recuperação ainda não é homogênea. Na comparação anual, materiais básicos cresceram 1,4%, enquanto os materiais de acabamento recuaram 2,1%.
Em outras palavras, resiliência não significa crescimento consolidado. Para quem vende a prazo, essa diferença importa porque clientes e canais podem atravessar o mesmo cenário com capacidades financeiras bastante distintas.
O varejo de materiais de construção não desacelera por igual
A desigualdade fica ainda mais evidente quando o varejo é analisado por porte.
Na consolidação do Termômetro ANAMACO, 56,7% das lojas com 50 ou mais funcionários relataram crescimento das vendas no primeiro semestre. Entre estabelecimentos com até quatro funcionários, o percentual foi de 27,7%; entre aqueles com cinco a nove funcionários, 27,3%.
É importante ressaltar que esses percentuais medem a percepção dos lojistas sobre a variação das vendas em relação ao mês anterior, e não a taxa de crescimento do faturamento.
Ao mesmo tempo, a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE mostra que, entre janeiro e maio, o volume de vendas de materiais de construção caiu 1,0%. Já a receita nominal cresceu 2,6%.
Assim, movimentar mais dinheiro nominalmente não significa necessariamente vender maior quantidade, preservar margem ou melhorar a capacidade de pagamento.
Como essa pressão pode chegar ao contas a receber B2B?
A transmissão para a inadimplência B2B não é automática. Contudo, existe uma sequência de risco que merece acompanhamento.
Quando a demanda fica mais irregular, empresas com menor escala podem enfrentar maior oscilação no giro. Em seguida, estoque, despesas fixas, crédito e fornecedores passam a concorrer por um caixa mais limitado. Nesse ambiente, pedidos de extensão de prazo, pagamentos parciais, renegociações ou quebras de promessa podem começar a aparecer.
Por isso, a gestão de contas a receber precisa observar não apenas o vencido, mas também os sinais anteriores ao atraso.
Entre os indicadores que merecem acompanhamento estão:
migração de clientes para faixas maiores de aging;
aumento de pedidos de prazo;
pagamentos parciais recorrentes;
crescimento das quebras de promessa;
mudanças no comportamento de compra;
aumento da exposição sem melhora proporcional no recebimento.
Dessa forma, crédito, cobrança e comercial conseguem identificar deterioração antes que ela apareça apenas no saldo total de inadimplência.
Por que a média da carteira pode esconder o maior risco?
Imagine uma carteira na qual grandes redes continuam comprando normalmente, enquanto pequenos varejistas, distribuidores regionais ou determinados grupos de construtoras começam a alongar pagamentos.
A média geral pode continuar aparentemente saudável. Entretanto, uma parcela específica da carteira já pode estar acumulando exposição.
Por isso, uma boa análise de crédito e risco deve cruzar pelo menos porte, canal, região, histórico de pagamento, concentração de receita, tipo de produto e dependência de vendas a prazo.
Isso não significa assumir que empresas menores serão inadimplentes. Pelo contrário: significa abandonar generalizações e identificar quais clientes realmente apresentam mudança de comportamento.
O risco não está necessariamente na média
Os indicadores mais recentes de 2026 mostram uma cadeia de materiais de construção que continua operando em ritmos diferentes. Enquanto determinados segmentos demonstram resiliência, a indústria revisou suas projeções para baixo, o varejo apresenta desempenho desigual e a inadimplência empresarial nacional segue em patamar recorde.
Para lideranças financeiras e comerciais, esses sinais reforçam a importância de olhar além dos resultados agregados. O desafio não é apenas identificar quanto da carteira está inadimplente, mas reconhecer onde a capacidade de pagamento começa a se deteriorar.
Transformar esses dados em segmentação, acompanhamento e ação antecipada pode fazer a diferença para proteger o fluxo de caixa e preservar oportunidades de recuperação.
Quer transformar sinais de risco em uma estratégia mais segmentada? Conheça as soluções de cobrança B2B da Global e veja como organizar a recuperação de crédito sem tratar toda a carteira da mesma forma.
Perguntas frequentes
A inadimplência B2B em materiais de construção aumentou em 2026?
Os dados disponíveis não permitem afirmar que houve aumento generalizado da inadimplência B2B especificamente no setor. Porém, recordes de empresas negativadas, juros elevados e desempenho desigual da indústria e do varejo indicam um ambiente de maior pressão e risco.
Por que pequenos varejistas merecem atenção especial?
A ANAMACO identificou percepção de crescimento significativamente menor entre lojas pequenas do que entre estabelecimentos de maior porte. Isso não significa inadimplência automática, mas reforça a necessidade de analisar capacidade financeira, histórico e comportamento de pagamento individualmente.
Quais sinais podem indicar deterioração da carteira?
Aumento do aging, pedidos frequentes de prorrogação, pagamentos parciais, quebra de acordos, mudanças no volume de compras e crescimento da exposição sem melhora no recebimento são alguns sinais importantes.
Como reduzir o risco sem prejudicar as vendas?
O caminho é integrar crédito, comercial e cobrança. Além disso, políticas diferentes por perfil de cliente permitem preservar oportunidades comerciais sem aplicar os mesmos limites, prazos e estratégias a toda a carteira.